Quaresma e Jejum

Todas as religiões têm períodos voltados à reflexão que fazem parte da disciplina religiosa, e cada uma possui o seu calendário de datas importantes para seguir.

Para o cristianismo, o período mais importante desse calendário é a Páscoa, e o ponto central é a Ressurreição de Jesus Cristo.

A tradição cristã nos orienta, no tempo que antecede a Páscoa, a mudar algo que precisamos melhorar, além da oração, do jejum, da caridade e da esmola.

Os seus praticantes procuram viver nesses dias os passos dados por Jesus, quando passou 40 dias no deserto jejuando, sofrendo e vencendo as tentações.

Todos são acolhidos para viver esse período tão propício, purificando a mente, renovando o coração, perdoando, reconciliando-se com o próximo e estando mais com Deus.

Fazemos uma análise do nosso comportamento e, com esforço, buscamos as coisas boas que nos estão faltando.

Nem todos os propósitos conseguimos, mas a cada dia, com a ajuda de Deus, vamos subindo degrau por degrau…

 

Jejum: um alimento espiritual unido à oração

O jejum é uma tradição religiosa e terapêutica praticada por todas as religiões e que exige esforço e disciplina.

Funciona como um mecanismo de autocontrole sobre os sentidos e fortalece o crescimento espiritual.

Para a Igreja Católica, é uma prática do dever cristão, principalmente no período de 40 dias de Quaresma que antecede a Páscoa.

Tradicionalmente, os católicos em todo o mundo se abstém de carne, mas podemos escolher outros tipos de privações, como deixar de comer doces e chocolates, se desligar do mundo virtual etc.

 

O jejum deve trazer confiança e entusiasmo

É importante para adquirir disciplina, fortalecer a vontade, refrear a gula e o nosso comer…

O Catecismo Romano de Dom Gaspar Lefebvre se refere à gula como o excesso de comer, abusos das guloseimas, embriaguez, despesas excessivas de mesa e sensualidade.

Quando dominamos nosso apetite, assumimos um domínio mais saudável e clareza quanto aos alimentos nocivos à saúde.

Como purificação física, o jejum dá um descanso ao sistema digestivo e evita males e enfermidade, podendo até curá-las.

Como purificação espiritual, deixa o corpo mais leve e desimpedido da sobrecarga que o processo digestivo exige. Assim facilita nossa oração, para estar mais em comunhão com Deus.

 

Período do jejum

– A forma do jejum deve ser estabelecida pela pessoa, sem ser imposta por outros.

– Não é possível estabelecer um tempo igual para todas as pessoas. Devemos levar em consideração seu estado de saúde, que fisicamente deve ser bom. Caso contrário, poderá debilitá-la tanto que não ela terá disposição para fazê-lo. Nem todos podem suportar um jejum de 24 horas, devido à sua estrutura física.

– Uma pessoa muito magra ou desnutrida não pode passar um período longo sem comer.

– Uma pessoa que exerce um trabalho braçal tem necessidade de se alimentar. Sendo assim o jejum pode ser de 12, ou até mesmo 6 horas.

– Mulheres grávidas ou que amamentam deve ser acompanhadas por um médico.

– Certas pessoas podem ficar em total abstenção e mesmo assim não perder sua disposição mental e física; outras já não conseguem ter disposição nem concentração, devido ao “desespero” do seu corpo por comida.

– Se o tempo for de 16 horas, você escolhe o seu horário de jantar. Nesse momento já estará livre para se alimentar.

– Importante não deixar o jejum ultrapassar o período de 24 horas sem comer. A partir daí, o nosso metabolismo cai, e pode haver sintomas como náuseas, vômitos, arritmia cardíaca e fraqueza geral, segundo o doutor Bruno Chausse.

 

Nosso ego tem dificuldade em aceitar suas fraquezas

O jejum também deixa a pessoa mais humilde. Com as “forças mais enfraquecidas” se tem uma visão mais humilde de si mesmo.

O corpo é insaciável como o centro das necessidades e das privações, sempre com fome, sede e outras necessidades.

O jejum, como forma de domar o corpo insaciável, deixa a pessoa mais resistente para controlar seus desejos e mais forte espiritualmente.

Pratique gradualmente e seja firme!

O jejum pode ser praticado uma ou duas vezes na semana.

É excelente para criar um ambiente interno para o corpo curar-se de algum mal físico e mental.

Não podemos limpar a mente com água e sabão, mas podemos dominar seus desejos e dizer “não”.

 

Jejum simples

– Durante o jejum, consumir bebidas que trazem bem-estar: água de coco, chás de camomila, erva doce, capim cidreira, hortelã, hibisco e carqueja.

– O café aumenta a ansiedade e a vontade de comer.

– A base desse jejum é que você tome o café da manhã e depois faça apenas uma refeição; almoço ou jantar.

– Se não pretende tomar o café da manhã completo, tome suco de frutas.

– O importante é a disciplina de não comer nada além dessas refeições, sem beliscar ou abrir a geladeira várias vezes para comer uma coisinha.

– Deixar de lado balas, doces, chocolates, biscoitos, refrigerantes, bebidas e cafezinhos.

 

Jejum de pão e água

– Não se deve comer pão e beber água ao mesmo tempo. O nosso tipo de pão, quando comido com água, geralmente fermenta no estômago causando mal-estar. Então, beber água quando se tem sede, e comer pão quanto se tem fome.

– O pão feito em casa é o mais aconselhável.

– Tome água no decorrer do jejum mesmo se não tiver sede.

– Em dias frios, os caldos quentes de legumes são bastante nutritivos, além de aquecer.

 

Jejum de líquidos

– Durante o jejum, além da água podemos tomar chá puro (quente ou frio) adoçado com um pouco de mel ou açúcar; o chá alimenta e mantém o corpo aquecido no inverno.

– Podemos usar uma variedade de opções que nos mantêm bem dispostos: laranjada, limonada, sucos de frutas e de legumes como cenoura, beterraba e verduras, especialmente no verão.

 

Jejum completo

Nesse tipo de jejum, não se come coisa alguma e só se bebe água. Tome água, várias vezes ao dia para manter o corpo hidratado.

É recomendável, antes de experimentar esse tipo de jejum, fazer o jejum de pão e água e o jejum de líquidos, que podem servir de treino.

 

No dia de jejum

Às vezes o jejum pode trazer fraqueza. Um caldo de legumes no final do dia é recomendado; banana amassada com canela também é uma opção.

Para quebrar o jejum, tome uma limonada e em seguida frutas.

Aquela pessoa que sabe suportar a exigência física de um jejum prolongado poderá também suportar um insulto, uma irritação… porque tem domínio sobre si mesma!

Após vários jejuns, o corpo se acostuma a guardar suas reservas!

 

A travessia de Jesus no deserto

O deserto foi o trajeto de 40 dias percorrido por Jesus, depois do seu batismo.

“Jesus foi batizado por João Batista no rio Jordão.

No momento em que Jesus saia da água, João viu os céus abertos e desceu o Espírito em forma de pomba sobre ele.

E ouviu-se dos céus uma voz: Tu é o meu Filho muito amado; em Ti ponho minha afeição.

E logo o Espírito o impeliu para o deserto. Aí esteve 40 dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam.”

No silêncio do deserto, Jesus experimentou um encontro pessoal com o Pai, discernindo a sua vontade, para saber como agir em sua missão.

Jesus, um modelo de vida para a humanidade!

 

As três tentações de Jesus no deserto

O diabo aparece a Jesus de um modo frontal, sem máscaras ou camuflagem, no fim de um jejum de 40 dias, e, ao ser derrotado, vai embora!

 

A primeira tentação:

Aproximou-se dele e lhe disse: “Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães”.

Jesus respondeu: “Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Deut 8,3).

Jesus se nega a usar seus poderes especiais em benefício próprio.

 

A segunda tentação:

O demônio o transportou à Cidade Santa (Jerusalém) colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: “Se é Filho de Deus, lança-te abaixo”.

Disse-lhe Jesus: “Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus” (Deut 6,16).

 

A terceira tentação:

O demônio transportou-o uma vez mais a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e lhe disse: “Dar-te-ei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares”.

Respondeu-lhe Jesus: “Para trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás” (Deut 6,13).

O tentador propõe-lhe abandonar o serviço exclusivo de sua missão ao Pai, para obter benefícios e riquezas humanas em sua vida.

 

A travessia do deserto rumo à Ressurreição

Depois de Jesus ter sido tentado em sua humanidade, quase no final de sua vida terrena aparece transfigurado e resplandecente em sua divindade, para, depois, padecer sua Paixão e Morte e finalmente ressuscitar vivo, no Domingo de Páscoa.

 

O deserto

Um lugar de provas, momentos estéreis da vida, tribulações e dificuldades.

Lugar quente, árido, solitário, silencioso, difícil, estressante…

Quem caminha no deserto fica com sede e não encontra água, fica com fome e não encontra comida. Completamente vulnerável, não há lugar para se esconder.

As mudanças de temperatura são enormes: de dia o calor é insuportável, acima de 40 graus. De noite, faz frio abaixo de zero.

No deserto não se valoriza conforto, bens ou honrarias…

Aí a natureza humana se revela em toda a sua fragilidade, nas vontades básicas que homens e mulheres carregam em seus corações: a necessidade de saciar a fome e a sede, o desejo de poder e de riqueza.

Deserto: um lugar árido, como os corações que não se curvam ao arrependimento e à mudança de vida!

Tornar esse deserto num lugar frutífero exige mudanças. Todos passam por tribulações, desafios e necessidades na vida.

O deserto pode ser transformado pela mão poderosa de Deus.

 

Deus faz do deserto um lugar sagrado

“Eis o que diz o Senhor que te criou, que te formou desde o ventre materno:

Porque derramarei água sobre o solo seco e a farei correr sobre a terra árida,

derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e minha bênção sobre teus filhos.” (Isaías 44)

Maravilhosas bênçãos estão sendo derramadas sobre nós!

Se Jesus como homem pôde superar suas tentações, a pessoa humana pode fazê-lo também!

“Jesus era verdadeiro homem, em tudo semelhante aos outros homens, que sofreu tentações, por isso, Ele pode entender a nossa debilidade, pois teve as mesmas tentações” (Carta de São Paulo aos Hebreus 2,17)

Uma tentação nunca é superior às forças humanas, principalmente para aqueles que vivem os Seus ensinamentos.

 

Será que estamos dispostos a entrar no deserto?

A tentação é um desafio à nossa liberdade. É simplesmente inevitável e a sofremos todos os dias!

Não é algo desonroso, mas deve ser vista como uma fraqueza humana e ser identificada!

 

Qual é a sua tentação?

Quando a pessoa tem tentações, sempre se apresentam dois caminhos para agir: um é bom e o outro é mau.

Essa dualidade constitui a tentação. Se escolhemos a via correta, crescemos e amadurecemos; se optamos pelo errado nos prejudicamos.

Sempre colhemos o que plantamos: se plantamos um pé de maçã, colheremos maçãs…

O deserto se torna um lugar insuportável quando resistimos a viver conforme o mandamento: “Faça aos outros o que quereis que vos façam”.

 

Na Quaresma nos esforçamos para dominar nossas más inclinações

Raiva, rancor, inveja, ciúme, egoísmo, arrogância, pois é dentro de nós que tudo isso se forma.

“O que torna o homem impuro não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior.”

Jesus se refere ao que sai da nossa natureza humana!

Dentro de nós estão escondidos os maus desejos, as más inclinações, os julgamentos, a maldade!

Se olharmos para as situações de nossa vida, percebemos que esses sentimentos se acumulam, modelando o nosso comportamento. Por isso, precisamos perdoar!

Quantas lembranças e antigas feridas podem voltar!

O nosso lado racional não para de nos lembrar das dores, remoendo os nossos pensamentos.

A raiva e o ressentimento vão se instalando, até que se perde o controle dos sentidos e cometem-se loucuras!

As situações mal resolvidas que simplesmente “enterramos”, aquilo fica guardado e esquecido, mas quando vem à tona se torna um verdadeiro monstro!

Quando não gostamos de alguém, isso nasce do nosso coração; não é a pessoa que provoca isso em nós, é o que está dentro de nós que aflora para desejarmos o mal a essa pessoa.

Quando alguém pratica o adultério, não é o outro que o provocou; dentro do coração foi alimentada a sensualidade e a ação desse desejo.

 

Purificando a mente e o coração

Um dos caminhos para a nossa cura é a oração.

Quando a oração é feita com fé, provoca verdadeiras transformações. Com o tempo muitas das lembranças tristes serão apaziguadas ou apagadas por completo.

 

Uma oração:

“Divino Espírito Santo, que iluminou Jesus em sua travessia no deserto, descei sobre mim e cobri-me com o seu poder de cura.

Limpai a minha mente dos maus desejos, da falta de perdão…

Não deixeis surgir pensamentos de vingança, autodestruição, ansiedade, tristeza, ódio, rancor, ciúme, inveja…

Expulsai de mim todos os pensamentos sombrios e agressivos.

Atendei minha prece, Senhor!

Obrigada, meu Deus, por ouvir o meu clamor!”

 

 

Grande abraço,

Jane Fiorentino

 

O conteúdo deste post é de inteira responsabilidade do autor. – escrito por Jane Fiorentino.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 Comentários

  1. Igor Stumpf disse:

    Oi Isabella, meu nome é Igor Stumpf, também sou católico e fiquei bastante feliz em ler esse texto. Sou da cidade de Petrópolis – RJ e participo de um grupo chamado Oficina de Valores que além de trabalhos pastorais, possui também um blog com textos interessantíssimos. Se puder e quiser, dê uma olhada. 😉

    http://oficinadevalores.blogspot.com.br/

  2. Parabéns pelo texto parabéns pelo exemplo de católicos, gostei muito da iniciativa de partilhar a importância da Quaresma do jejum, em meio a esse deserto que estamos temos sede, temos fome, temos a certeza de que o senhor Jesus Cristo nos alimentará com o seu corpo, obrigado pelo texto um grande abraço.

  3. Parabéns isabella e jane@fiorentino.com.br
    Que o senhor Jesus Cristo vos abençoe

  4. Rose leite disse:

    Linda mensagem! Obrigada!